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INTRODUÇÃO

A azulejaria tem vindo a afirmar-se como uma área de estudo específica dentro da História da Arte portuguesa, ainda que em estreita relação com a pintura, a arquitectura, a escultura, etc., uma vez que os seus intervenientes - pintores de azulejos, azulejadores, autores, etc. - dominavam muitas outras técnicas artísticas, trazendo os seus conhecimentos para o campo da azulejaria, assim influenciando o modo como pintavam e concebiam o azulejo.

Investigar a azulejaria portuguesa implica reconhecer a sua especificidade mas, ao mesmo tempo, integrá-la quer na História da Arte quer em outros ramos do conhecimento, numa perspectiva multidisciplinar. Implica também alargá-la a um contexto internacional pois o azulejo português partilha uma matriz visual que extravasa as fronteiras da Europa, em parte fomentada por uma longa práctica de pintura inspirada em modelos que circulavam através de gravuras, mas também de tapeçarias, têxteis, iluminuras, ourivesaria, etc.

Para estudar cinco séculos de aplicações cerâmicas existentes em Portugal, boa parte das quais se conservam in situ (aspecto fundamental desta arte, concebida especificamente para o local de aplicação), é imprescindível poder dispor de ferramentas adequadas. Existem já publicados, desde meados do século XX, inventários de azulejaria in situ, que constituem referências de grande importância mas que, naturalmente, se encontram desactualizados. Em contrapartida, os inventários digitais surgem, actualmente, como ferramentas de gestão de informação com enormes vantagens.

A Rede Temática em Estudos de Azulejaria e Cerâmica João Miguel dos Santos Simões (IHA-FLUL), e o Museu Nacional do Azulejo têm vindo a desenvolver trabalho na área do inventário, de forma a poder disponibilizar online à comunidade científica um sistema de informação sobre azulejaria portuguesa, que resulta da articulação de várias bases de dados.

Esta ferramenta permite organizar a informação e torná-la acessível ao investigador e ao público em geral, contribuindo para o estudo e investigação mas também para a divulgação do património e, consequentemente, para a sua preservação. A disponibilização de bases de dados digitais possibilita o acesso à informação por um muito maior número de pessoas, potenciando o cruzamento de dados e, no caso da azulejaria portuguesa, tão permeável às influências internacionais, esta pode ser uma via de grande importância para o diálogo intercultural.

A especificidade do património em causa conduziu a um debate entre os investigadores da Rede Temática, do Museu Nacional do Azulejo e outros especialistas na área, para definir os objectivos e procedimentos do inventário. Iniciado o processo em 2009, foi escolhida uma ferramenta de gestão de bases de dados já disponível – o InPatrimonium, desenvolvido pela empresa Sistemas do Futuro, Lda.. Suficientemente flexível para responder a todas as necessidades, o sistema foi especialmente ajustado e conheceu o desenvolvimento de um novo módulo para tratar a questão da azulejaria de padrão, com características muito próprias.

Intitulado “Az Infinitum – Sistema de Referência e Indexação de Azulejo”, o sistema é acessível online através de cinco grandes áreas: (1) in situ; (2) iconografia; (3) padrões; (4) autorias, (5) bibliografia, tendo sido dedicada uma especial atenção ao vocabulário controlado e à utilização, sempre que possível, de listas internacionais.

Importa ainda referir que todo o sistema assenta num banco de imagens, no qual a fotografia assume uma dupla função de grande importância. Para além do registo documental, numa segunda fase, especialmente relacionada com os padrões, e através da manipulação digital da fotografia, são concebidas simulações de montagem de um padrão e da sua aplicação em zonas mais extensas.

Deste modo, a sistematização de conhecimento que se propõe com o sistema descrito potenciará, num futuro próximo, uma perspectiva renovada sobre a história do azulejo em Portugal.

 

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ÁREAS DO SISTEMA

 

In situ

A organização do inventário corresponde à disposição hierárquica dos espaços com revestimentos cerâmicos in situ, organizados em árvore, do geral para o particular. Ex. Hospital de São José / Salão nobre / Revestimento cerâmico do salão nobre

O investimento do presente inventário prende-se com os revestimentos cerâmicos, razão pela qual as áreas do imóvel e do espaço em que o revestimento se encontra aplicado não são objecto de desenvolvimento, remetendo, através de links, para os inventários do património arquitetónico existentes em Portugal, como é o caso do Sistema de Informação para o Património Arquitectónico [SIPA], desenvolvido pelo Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana [IHRU].

No processo de inventário, a leitura dos revestimentos tem em consideração as características do espaço e a lógica das representações, quer sejam figurativas, de padrão ou de repetição. De acordo com o manual de procedimentos da RTEACJMSS, a avaliação do espaço é feita da esquerda para a direita, a partir da entrada. O revestimento é lido, verticalmente, por níveis (de baixo para cima) e, horizontalmente, por secções (da esquerda para a direita), que podem corresponder a painéis figurativos ou a áreas de padronagem. Pode haver exceções a estes procedimentos quando a inventariação é efectuada por outros grupos, caso de projetos específicos como o Inventário do Património em Azulejo do Século XVIII em Território Continental [IAPC].

Alguma da informação não se encontra, para já, disponível, nomeadamente a conservação e restauro que se completa com dados referentes a intervenções, imprescindíveis para qualquer estudo.

 

Iconografia

A descrição detalhada dos temas representados em cada secção figurativa constitui um texto objetivo e sucinto referente à imagem em análise e não ao conhecimento que dela se tem, organizada do geral para o particular. Esta área é apoiada por uma classificação temática que identifica o tema representado. Sempre que se justifique a inserção de mais do que um tema, a descrição é seccionada, sendo sempre identificada a parte a que se reporta. A tabela de classificação resulta da tradução do sistema Iconclass [www.iconclass.org], inserido na base de dados da RTEACJMSS em forma de árvore. Os códigos foram respeitados de forma a que seja possível ver a correspondência dos mesmos em outras línguas, através do website do Iconclass.

Encontra-se em desenvolvimento a tradução para português do Iconclass e está prevista a comunicação direta entre esta base de dados e a da RTEACJMSS, ficando ainda disponível uma mais completa plataforma de navegação.

Prevê-se ainda que, para além da identificação do tema representado, cada imagem seja catalogada quanto aos diferentes motivos representados.

Dada a diversidade temática e cronológica do inventário, o preenchimento deste campo não é obrigatório para todos os revestimentos

 

Padrões

O projecto Catalogação de padrões da azulejaria portuguesa, desenvolvido em articulação com o Museu Nacional do Azulejo, disponibiliza uma ferramenta de pesquisa e de apoio à investigação científica para a área da azulejaria de padrão. Para tal foi desenvolvido um módulo específico no sistema de inventário utilizado pela RTEACJMSS, o InPatrimonium, que se articula com o módulo de inventário da azulejaria in situ. Este método permite catalogar os padrões e identificar os locais onde os mesmos se encontram aplicados, numa sistematização de conhecimento que potenciará, num futuro próximo, uma perspectiva renovada sobre a história do azulejo em Portugal (por exemplo, cronologias de manufactura, de aplicação, de cores, de autorias, etc.).

Tendo como base a catalogação proposta por João Miguel dos Santos Simões para o século XVII [SIMÕES – 1971], o grupo de trabalho constituído para este projecto pretendeu alargar o âmbito cronológico da sistematização realizada por aquele investigador, incluindo na sua catalogação toda a azulejaria de padrão aplicada em Portugal, desde o século XV até à contemporaneidade. Tirando partido das potencialidades que as novas tecnologias trazem hoje à História da Arte, o projecto teve início com a revisão da obra de Santos Simões, optando-se por manter algumas das propostas já experimentadas, mas introduzindo outras.

O número de catálogo já atribuído para a azulejaria do século XVII manteve-se, embora acrescentando mais dígitos e a indicação do século, de forma a permitir o crescimento da base de dados e a possibilitar a leitura imediata da cronologia. Ex: P-17-00999 ou seja P(adrão)-17 (século)-00999 (nº de inventário partindo da obra de Santos Simões).

O conceito de centro de rotação, que implica o de centro principal [SIMÕES – 1971], foi excluído deste projeto. Esta opção tem duas justificações. A primeira prende-se com o facto de não se pretender privilegiar um centro de rotação em detrimento de outro, nos casos em que se identificam vários. Esta ideia reflete-se nas montagens fotográficas de cada padrão, onde são visíveis as opções possíveis e as respetivas montagens. O facto de se utilizar, nas legendas das imagens, “centro a” ou “centro b” serve apenas para diferenciar os motivos, sem hierarquia. A definição do número de centros é ponderada em função da área que os motivos ocupam no padrão e pelo impacto visual dos mesmos.

A segunda justificação relaciona-se com a construção do padrão. Santos Simões privilegiou o ponto de vista do azulejador, ou seja, o elemento mínimo que é repetido e que pode corresponder, num padrão de 2x2, a 1 azulejo. Reflexo desta construção são os desenhos reproduzidos na obra, apenas aguarelados no elemento mínimo, o que gera dificuldades de visualização do padrão na sua totalidade. A catalogação agora apresentada privilegia o olhar do observador, uma vez que apresenta imagens do padrão nas suas diversas vertentes, desde o módulo até à repetição simulando a sua montagem em extensão, através da manipulação de fotografias digitais.

Um dos principais objetivos deste projeto foi incluir uma descrição pormenorizada de cada padrão, com base num vocabulário uniformizado, cujo nível de detalhe facilita a distinção entre padrões semelhantes. Esta abordagem, que permite detetar pequenas diferenças formais e cromáticas, tem conduzido à identificação de novos padrões e, consequentemente, à atribuição de novos números para o século XVII.

A ideia de definir um campo para o ritmo visual dos padrões é também uma novidade face ao trabalho de Santos Simões, mas que permite perceber o impacto visual das principais linhas de força e das formas que resultam do padrão em repetição e em aplicação.

Para a construção do banco de imagens, a fotografia assume uma dupla função de grande importância. Numa primeira fase de trabalho é utilizada como registo do azulejo aplicado in situ, documentando o revestimento no seu contexto, mas também conceções de espaço ou preferências estéticas que demonstram a habilidade conceptual e técnica dos envolvidos (azulejadores, pintores, etc.). Não menos importante, a fotografia regista o estado de conservação do revestimento, informação incontornável num património permanentemente submetido à degradação e ao furto. Numa segunda fase, através da manipulação digital da fotografia, são concebidas simulações de montagem de um padrão e da sua aplicação em zonas mais extensas o que permite o estudo pormenorizado dos azulejos em todos os seus elementos gráficos - centros, elementos de ligação, etc. -, mas também as variedade de ritmos visuais e/ou de desenhos que o padrão produz. Estes dados constituem uma mais-valia para o utilizador, uma vez que evidenciam a riqueza e complexidade da aplicação da azulejaria de padrão.

 

Autorias

Dicionário de autorias [pintores, oleiros, azulejadores, fábricas, ceramistas…], pesquisável alfabeticamente (organizado por apelidos) e por especialização. Articula-se com as fichas de revestimento cerâmico in situ.

 

Bibliografia

Registo de referências bibliográficas [monografias / periódicos] relacionadas com azulejaria produzida ou aplicada em Portugal, em permanente actualização, e em ligação com todas as áreas do sistema.

 

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GLOSSÁRIO

 

Autoria

Interveniente(s) envolvidos na conceção e/ou na execução da obra (pintores, oleiros, azulejadores…). Inclui obra assinada, documentada ou atribuída.

 

Centro

Excluiu-se o termo centro de rotação usado por Santos Simões e definiu-se a existência de um centro ou mais conforme a área abrangida pelos motivos. Se houver dois motivos num mesmo padrão e um deles for de dimensão muito mais reduzida, apenas se considera um centro, e o outro motivo como elemento de ligação. Do mesmo modo, não há numerações nos centos, de forma a evitar privilegiar um deles. Consideram-se todos ao mesmo nível.

 

Cores

No campo relativo às cores, o branco vem primeiro por ser o fundo vidrado, seguindo-se todas as restantes por ordem de impacto.

 

Cronologia

Informação relativa à data ou período correspondente às várias fases da obra (conceção, execução, aplicação, intervenções posteriores, etc.)

 

Designação do espaço

Os espaços com revestimentos cerâmicos in situ, são organizados hierarquicamente em árvore, do geral para o particular. Ex. Hospital de São José / Salão nobre / Revestimento cerâmico do salão nobre. Aplica-se preferencialmente a designação atual, mas a pesquisa inclui as outras designações inseridas no sistema.

 

Designação do padrão

Relativo às designações utilizadas pela historiografia para determinados padrões, por exemplo “maçarocas” ou “camélias”. Ainda que possam ser acrescentados elementos que permitam identificar os seus referentes originais, por vezes diversos das designações que tradicionalmente lhes são associadas, iremos manter aqueles por fazerem já parte do léxico da História da Arte.

 

Designação do revestimento

O revestimento corresponde a uma composição cerâmica aplicada numa superfície arquitetónica (parede, nicho, etc…). No processo de inventário, a leitura destes revestimentos tem em consideração as características do espaço e a lógica das representações, quer sejam figurativas, de padrão ou de repetição. De acordo com o manual de procedimentos da RTEACJMSS, a avaliação do espaço é feita da esquerda para a direita, a partir da entrada. O revestimento é lido, verticalmente, por níveis (de baixo para cima) e, horizontalmente, por secções (da esquerda para a direita), que podem corresponder a painéis figurativos ou a áreas de padronagem.

 

Elemento de ligação

Motivo que estabelece a ligação entre os centros ou entre os elementos centrais.

 

Módulo

Composição formada por um ou mais elementos mínimos de repetição que, agrupados em diferentes posições, constituem o motivo do padrão. Exemplo: num padrão de 2x2/1 o módulo é formado por 4 azulejos e o elemento mínimo de repetição reporta-se a 1 azulejo. Num padrão de 4x4/4 o módulo é formado por 16 azulejos e o elemento mínimo de repetição reporta-se a 4 azulejos.

 

Nível

Sequência de leitura das secções, organizada verticalmente, de baixo para cima.

 

Número do padrão

É constituído por um código alfanumérico que revela a tipologia, o século a que pertence e o número de cinco dígitos que lhe foi atribuído. Por exemplo: P-18-00001, indica que se trata de um padrão (P) do século XVIII (18) com o número 00001.

As tipologias reportam-se a padrão (P), barra (B), cercadura (C), friso (F), canto (ct) e cantoneira (ca). Como cada barra ou cercadura pode ter mais do que um canto,  estes estão associados ao seu próprio número. Por exemplo:

B-17-0000-ct01, B-17-0000-ct02, etc.

C-17-0000-ct01, C-17-0000-ct02, etc.

No caso das cantoneiras, habitualmente associadas a frisos, estas adoptam o número do friso, mas com tipologia respectiva. Por exemplo: Ca-17-00001.

Estes códigos tiveram por base a numeração proposta por Santos Simões para o séc. XVII [SIMÕES: 1971], aos quais foi acrescido o número referente ao século, de forma a permitir o alargamento da base a outras centúrias e tipologias. Assim, a catalogação do século XVII constitui um caso particular, no qual os intervalos entre os códigos foram respeitados e os novos padrões identificados começam depois do último número atribuído por aquele investigador. Para os restantes séculos, os códigos atribuídos têm início em 00001.

  

Produção

Entidade(s) responsável pela execução da obra e/ou local de manufactura (olarias, fábricas…). Inclui obra identificada, documentada ou atribuída.

 

Projetos

- IAPC - Inventário do Património em Azulejo do Século XVIII em Território Continental

Projeto financiado no âmbito do concurso de projetos da FCT (POCTI/HAR/45609/2002), que contou com a participação de diversas universidades e do Museu Nacional do Azulejo, e que teve como investigadora principal Alexandra Gago da Câmara. O objetivo essencial foi reavaliar o inventário da azulejaria do século XVIII efetuado por João Miguel dos Santos Simões e publicado em 1979, já postumamente. As fichas realizadas pelos vários inventariantes estiveram na origem da reedição da obra de Santos Simões, em 2010, pela Fundação Calouste Gulbenkian. São estas mesmas fichas que agora se reproduzem na íntegra, ainda que com algumas adaptações de forma a cumprir os critérios utilizados pela RTEACJMSS.

 

- CHLC - Inventário e estudos dos conjuntos azulejares do Centro Hospitalar de Lisboa Central

Ao abrigo do protocolo celebrado em 2010 entre o IHA/RTEACJMSS e o Centro Hospitalar de Lisboa Central, foram inventariados e estudados todos os conjuntos cerâmicos e azulejos avulsos que se encontram nos hospitais de São José, Santa Marta e Santo António dos Capuchos.

 

Revestimento cerâmico

Composição cerâmica aplicada numa superfície arquitectónica (parede, nicho, etc…). No processo de inventário, a leitura destes revestimentos tem em consideração as características do espaço e a lógica das representações, quer sejam figurativas, de padrão ou de repetição. De acordo com o manual de procedimentos da RTEACJMSS, a avaliação do espaço é feita da esquerda para a direita, a partir da entrada. O revestimento é lido, verticalmente, por níveis (de baixo para cima) e, horizontalmente, por secções (da esquerda para a direita), que podem corresponder a painéis figurativos ou a áreas de padronagem.

 

Ritmo visual

Relativo ao impacto visual das principais linhas de força e das formas que resultam do padrão em repetição e em aplicação.

 

Secção

Área figurativa ou de padronagem, delimitada por guarnição cerâmica ou por outros elementos.

 

Tipo de relações [padrões]

Na generalidade os padrões correspondem a modelos estruturados que podem ser associados através de semelhanças formais. Deste modo, é possível estabelecer grandes conjuntos ou “famílias” que permitem conhecer a riqueza de soluções a partir de elementos mais ou menos fixos.

 

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